“Um sentimento inacreditável”
Postado em Divã do Daszma
Foi assim que Petra Kvitova explicou como se sentia após conseguir alcançar, até então, o maior feito da carreira, o título de Wimbledon. A tímida tcheca dona de um sorriso doce e golpes potentes disse quando chegou à final que não esperava, no início do torneio, sair como a vencedora do Grand Slam. Se não esperava, eu não sei. Mas o que Petra mostrou nessas duas semanas, nos sete jogos, é que ela queria muito. Tanto quis, que desbancou uma tenista que tem nas veias e nos feitos da carreira o espírito de luta como maior característica, Maria Sharapova.
A primeira vez que ouvi falar de Petra Kvitova foi no Aberto da França de 2008, quando, aos 18 anos, chegou às oitavas de final do Grand Slam Francês. Naquela época, eu não conhecia os streamings da internet, então não assisti a nenhum jogo. O que tinha me chamado a atenção na época foi que tínhamos duas tchecas com o mesmo nome na segunda semana do torneio. A outra era Petra Cetkovska, que seria eliminada pela sérvia Ana Ivanovic. Um ano mais tarde, em outro Grand Slam, eu finalmente assisti a uma partida da tal Kvitova. O jogo era de terceira rodada e eu só assisti a partida por causa da adversária, a russa e número 1 do mundo, Dinara Safina. O jogo, um verdadeiro drama, aconteceu na sessão noturna e terminou no tie-break do terceiro set. Se fosse nos outros Grand Slams poderia ter ido muito mais longe. Além dos golpes da tcheca (que hoje são mais contundentes e eficientes, mas já provocavam estragos), o que me chamou a atenção foi o comportamento aguerrido e concentrado da jovem tenista. Em partidas nervosas, em que as adversárias salvam e desperdiçam match points, a experiência geralmente pesa. Fosse outra adversária, Safina provavelmente teria vencido aquele jogo. Mas não. A russa encontrou uma tenista potente, focada, confiante e relaxada, que não se importou com as chances perdidas e nem com a pressão de jogar contra a número 1 do mundo na sessão noturna em uma Louis Armstrong lotada e participativa. No fim de um tie-break dramático, vitória da zebra Petra Kvitova. Uma vitória mental. (veja lances decisivos do drama jogo no vídeo abaixo)
Dois anos depois, mais confiante e experiente, a tcheca passou de zebra a uma grande promessa do tênis feminino. Dona de três títulos na temporada (todos nível Premier), Petra Kvitova conseguiu na grama de Wimbledon (onde disputou o ÚNICO Slam enquanto juvenil, em 2007) o maior feito da curta carreira. Depois de atropelar todas as adversárias (aplicou 60 62 na belga Wickmayer), Kvitova foi testada quando derrotou Pironkova e Azarenka, mas venceu com a tal força mental. Em ambos os jogos, depois de dominar completamente e vencer o primeiro set, a tcheca saiu derrotada no segundo. O que poderia levar muitas tenistas ladeira abaixo, em Kvitova surtiu o efeito contrário: Petra colocou a cabeça no lugar, elevou o nível e já quebrou as adversárias logo no primeiro game de saque delas. Na final contra a experiente Maria Sharapova (5 finais de Slam), Kvitova não precisou perder set para mostrar a sua força mental. Mas a russa a sentiu a cada vez que conseguia quebrar o saque da tcheca, mas tinha o saque quebrado logo em sequência. É de se admirar que em uma final de Grand Slam, a primeira da carreira, a tcheca nunca perdeu o controle da partida. Fato raro no tênis. Típico dos grandes campeões.
Se será uma das maiores da história de seu país (feito complicado quando se tem nomes como os de Navratilova e Novotna), só o tempo e a própria Petra nos dirá. A tcheca agora será mais estudada pelas adversárias e mais badalada (leia-se cobrada) pela imprensa. Chances para crescer ela tem. Petra já mostrou que pode jogar bem em qualquer superfície. Os 4 títulos conquistados no ano ilustram bem isso: Sydney (piso duro), Paris (indoor), Madrid (saibro) e Wimbledon (grama). Potencial para subir no ranking idem. Até o fim da temporada, Petra tem poucos pontos a defender, o que significa uma grande margem para somar, já que, com o novo ranking (7ª), será sempre uma das principais cabeças de chave. O grosso de 2010, que era a semifinal de Wimbledon, foi defendido. A tcheca, que já está quase com os dois pés no WTA Championships de Istambul, deve subir ainda mais no ranking e colecionar títulos.
Com mais uma nova campeã no Clube das vencedoras de Grand Slam, o último Major da temporada promete muitas emoções e equilíbrio. Com Kim Clijsters e as irmãs Williams em forma, Sharapova voltando às finais, Wozniacki e Azarenka crescendo e as duas novas campeãs de Slam, Kvitova e Na Li, a expectativa é de um GRANDIOSO U.S. Open.
As outras campeãs de Wimbledon
Se a o torneio de simples premiou uma das melhores tenistas da temporada, a chave de duplas teve como vencedora a melhor parceria do ano. Especialistas nas duplas, a eslovena Katarina Srebotnik e a tcheca (mais uma) Kveta Peschke derrotaram na grande decisão as “simplistas” Stosur e Lisicki e venceram o primeiro Major de suas carreiras e ainda se tornaram líderes do ranking de duplas. Melhor dupla da temporada com três títulos (Auckland, Doha e Eastbourne), o time esloveno-tcheco foi praticamente perfeito em Wimbledon. As campeãs perderam apenas dois sets em todo o torneio, mas nunca tiveram as vitórias ameaçadas. Na grande final, a dupla cabeça de chave número 2 (as principais favoritas foram King/Shvedova, campeãs em 2010), derrotou com facilidade – 63 61 – o mais badalado time do torneio. O título em Londres faz jus a duas grandes especialistas nas duplas e que já fizeram parcerias vitoriosas com outras tenistas, mas foram conhecer o sabor de um Grand Slam juntas.
Nas duplas mistas, a final reuniu duas tenistas que correm o circuito regular em simples, mas têm obtido os melhores resultados nas duplas. No duelo entre a ucraniana naturalizada russa Elena Vesnina e Iveta Benesova, a vitória ficou, logicamente, com a tcheca, que ao lado do austríaco Jurgen Melzer conseguiu o primeiro Slam da carreira. Na decisão contra Elena Vesnina e Mahesh Bhupathi, o time da tcheca não teve muito trabalho para vencer em dois sets. Destaque para a grande atuação de Melzer contrapondo com um dia não bom assim do indiano. Em Londres, além de não terem perdido nenhum set, Melzer e Benesova contaram com a sorte. E muito. A dupla enfrentaria, nas quartas de final, os americanos Bob Bryan e Liezel Huber que desistiram e deram de bandeja a classificação para os eventuais campeões. O destaque negativo do torneio de duplas mistas, além da derrota que levou Vesnina às lágrimas, foi a ausência da parceria sensação de Roland Garros, Thomaz Bellucci e Jarmila Gajdosova. Eliminado na primeira rodada na chave de simples, o brasileiro desistiu do torneio de duplas mistas, o que fez com que Jarka jogasse com o local Jamie Murray. Sem aquela química que teve com o brasileiro, a australiana foi eliminada na segunda rodada.
O futuro e o passado
No circuito juvenil, que nos anos anteriores teve como campeãs jogadoras que ainda não despontaram (Noppawan Lertcheewakarn e Kristyna Pliskova), a grande campeã foi a australiana Ashleigh Barty, de apenas 16 anos. Barty, que não era uma das grandes favoritas, derrotou na semifinal a holandesa Indy de Vroome, campeã na grama de Roehampton e uma das tenistas que utilizam a linha Sharapova Collection da Nike. Se na semifinal a adversária foi a “funcionária” da Sharapova, na final a oponente foi a pupila da belga Justine Henin, a russa Irina Khromacheva. Campeã nas duplas em Roland Garros, Khromacheva, que treina academia da estrela belga, oscilou muito mentalmente na decisão e foi derrotada em dois sets. Não era o torneio para russos venceram. Melhor brasileira no circuito juvenil, a pupila do Larri Passos, Beatriz Haddad Maia (a Bia), novamente furou o quali de um Grand Slam juvenil. Em Wimbledon, Bia anotou a primeira vitória em Grand Slams, mas foi derrotada na segunda rodada diante da norte-americana Victoria Duval.
A canadense Eugenie Bouchard (a loirinha) e a americana Grace Min, cabeças de chave dois do torneio de duplas, foram as grandes campeãs na modalidade, ao derrotarem o time formado pela holandesa Demi Schuurs (campeã nas duplas em Melbourne) e a chinesa Hao-Chen Tang, de virada, 57 62 75. O time campeão, aliás, foi o responsável pela eliminação da brasileira Bia Haddad, que, ao lado da russa Mayya Katsitadze, chegou às semifinais da chave de duplas. Mais precisas, Bouchard e Min, venceram por 6/1 e 6/3 colocando fim na grande campanha da brasileira na Europa. Mais uma vez, Bia sai com o saldo positivo de ter furado o quali de dois Grand Slams e muita experiência na bagagem.
No circuito de lendas convidadas que conseguiu reunir na final 27 títulos de Grand Slam, o grande campeão foi o espectador que pode se deliciar com a genialidade de Martina Navratilova, Jana Novotna, Martina Hingis e Lindsay Davenport, além de se divertir com o bom humor das outras lendas. O jogo foi vencido pelas mais novas, Hingis e Davenport, 6/4 6/4. Aqui, o que menos importa é o resultado. O torneio presenteou o fã de tênis mais jovem que não pode assistir jogadoras como Navratilova, Novotna, Zvereva, Gigi Fernadez (H-I-L-Á-R-I-A), Martinez, entre tantas outras que ajudaram a engrandecer o tênis feminino e fazem sofrer os mais saudosistas. Aos amantes do tênis refinado, dos pontos disputados na rede com imensa habilidade e precisão, a dica é se ligar no “torneio das tias”, que acontece em todos os Grand Slams. É a prova viva de que o talento é inerente ao tenista e resiste até a idade.
Bate-pronto
- Campeã de Wimbledon, a tcheca Petra Kvitova assumiu a vice-liderança no ranking da corrida para o WTA Championships, que irá acontecer no fim do ano em Istambul. Kvitova tem 5037 pontos no ranking que contém apenas os pontos da temporada de 2011 e está atrás apenas de Wozniacki (5776). Completariam a lista das oito classificadas: Na Li (4947), Sharapova (4840), Azarenka (4502), Bartoli (3816), Zvonareva (3176) e Clijsters (3160). Correm por fora: Schiavone (3094) e Petkovic (2631).
- Mais uma grande semana para o tênis brasileiro com os títulos da pernambucana Teliana Pereira em Denain, na França. Na final do torneio de 25 mil disputado no saibro, Teliana bateu a ucraniana Valentyna Ivakhnenko, por 64 63 e ganhou 50 pontos no ranking. Nas duplas, Teliana jogou ao lado da paraguaia Veronica Cepede Royg e saiu com o título depois de vencer as francesas Ghesquiere e Lexemia, por fáceis 6-1 6-1. No future em São José dos Campos, a campeã foi a catarinense Maria Fernanda Alves, que vinha caindo no ranking da WTA. Na final, a experiente tenista derrotou a jovem Nathaly Kurata em dois sets.
- Resultados dos Challengers das duas últimas semanas:
$50 Boston, EUA
Simples: Petra Rampre (SLO) d. (2)Tetiana Luzhanska (UKR) 62 57 64
Duplas: (2)Luzhanska/Mueller (USA) d. (1)Fichman (CAN)/Pelletier (CAN) 76(3) 63
$25 Perigueux, França
Simples: (6)Severine Beltrame (FRA) d. (7)Audrey Bergot (FRA) 64 62
Duplas: (1)Molinero (ARG)/Sema (JPN) d. (2)Costas-Moreira (ESP)/Ferrer-Suarez (ESP) 62 36 10-7
$25 Rome-Tevere Remo, Itália
Simples: Karin Knapp (ITA) d. (2)Laura Thorpe (FRA) 63 60
Duplas: Cepede Royg (PAR)/Ormaechea (ARG) d. Shamayko (RUS)/Shapatava (GEO) 75 64
$25 Lenzerheide, Suíça
Simples: Ani Mijacika (CRO) d. Amra Sadikovic (SUI) 63 36 63
Duplas: Mijacika (CRO)/Sadikovic (SUI) d. Hofmanova (AUT)/Tabak (SVK) 46 62 10-4
$25 Kristinehamn, Suécia
Simples: Jana Cepelova (CZE) d. (2)Alexandra Cadantu (ROU) 64 36 64
Duplas: (1)Jugic-Salkic (BIH)/Laine (FIN) d. (2)Babos (HUN)/Lykina (RUS) 64 64
$100 Cuneo, Itália
Simples: Anna Tatishvili (GEO) d. Arantxa Rus (NED) 64 63
Duplas: Minella (LUX)/Voegele (SUI) d. Birnerova (CZE)/Dolonts (RUS) 63 62
$50 Torun, Polônia
Simples: (3)Edina Gallovits-Hall (ROU) d. (4)Stephanie Foretz Gacon (FRA) 64 63
Duplas: (2)Foretz-Gacon (FRA)/Malek (GER) d. (1)Klepac (SLO)/Gallovits-Hall (ROU) 62 75
$ 50 Pozoblanco, Espanha
Simples: (1)Eleni Daniilidou (GRE) d. (4)Elitsa Kostova (BUL) 63 62
Duplas: (1)Bratchikova (RUS)/Pavlovic (FRA) d. Melnikova (RUS)/Shapatava (GEO) 62 64
$25 Denain, França
Simples: Teliana Pereira (BRA) d. Valentyna Ivakhnenko (UKR) 64 63
Duplas: Cepede Royg (PAR)/Pereira (BRA) d. Ghesquiere (FRA)/Lechemia (FRA) 61 61
$25 Ystad, Suécia:
Simples: Dia Evtimova (BUL) d. Jana Cepelova (CZE) 63 64
Duplas: Cadantu (ROU)/Enache (ROU) d. (1)Jugic-Salkic (BIH)/Laine (FIN) 64 26 10-5
$25 Middelburg, Holanda
Simples: Bibiane Schoofs (NED) d. Lesley Kerkhove (NED) 76(4) 61
Duplas: (4)Lemoine (NED)/Zanevska (UKR) d. (1)Cohen (USA)/Molinero (ARG) 63 64
$25 Stuttgart-Vaihingen, Alemanha
Simples: (7)Timea Babos (HUN) d. Korina Perkovic (GER) 16 62 63
Duplas: (1)Jurak (CRO)/Laurendon (FRA) d. (3)Birnerova (CZE)/Vogt (LIE) 46 61 10-0
Fotos: Getty Images, Site Oficial de Wimbledon e Zimbio Images













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