Adiós
Postado em Golden Racket
Meu tenista preferido se aposentou. Simples assim. Nunca mais vou vê-lo jogar no circuito profissional. Nunca mais vou vê-lo conquistar um pontinho no ranking da ATP. Nunca mais vou vê-lo erguer um troféu. Nunca mais vou ver os forehands matadores do fundo da quadra. Nunca mais vou vê-lo chegar naquelas bolas impossíveis que só o “Mosquito” conseguiria alcançar. Nunca mais vou ver as passadas inacreditáveis. Nunca mais as paralelas de backhand em cima da linha. Nunca mais.
Há alguns meses atrás, tive um pálido vislumbre do que significa “perder” para sempre o seu tenista preferido, quando Andy Roddick se aposentou e o Filipe Ribeiro e o Marcos Semensato viram seu mundo ruir. Faço aqui uma mea culpa para confessar que, na ocasião, tratei a dor alheia com certo desdém. Compreensível, uma vez que a aposentadoria de Andy Roddick não significava grande coisa para mim. A verdade é que, por mais que você ame o tênis, você vê jogadores novos surgindo e outros se aposentando o tempo inteiro, e nenhuma despedida é especialmente significativa, até que aconteça com o seu tenista preferido. E aqui vem a notícia triste: inexoravelmente, isso vai acontecer. Seu tenista preferido vai se aposentar, e não haverá nada que você possa fazer a respeito.
Bem, talvez “nada” seja uma palavra meio radical para o momento. Você pode escrever algumas linhas, pra talvez tentar fazer o mundo entender o que aquele ser especial transformou dentro de você. Você pode prestar homenagens emocionadas, como fez o Marcos para o Roddick e a Bárbara Galiza para a Dementieva. Você pode abrir seu coração e expor as lembranças maravilhosas do que passou e a saudade que vai sentir daqui pra frente. Você pode tentar encontrar algum eco, alguma outra voz que se junte à sua para não te permitir dizer “adeus” sozinho, e dessa forma deixar esse adeus um pouco menos difícil. Acho que este texto é pra isso. Não para enumerar os muitos feitos e glórias do meu tenista preferido. Há por aí gente bem melhor com números e estatísticas do que eu, muito mais capacitada para fazer isso. Não quero falar de tênis simplesmente, mas do que essa aventura fantástica representou na minha vida. Eu só queria dizer o que o Juan Carlos Ferrero significou e significa pra mim, antes de dizer adiós.
Eu não comecei a seguir o tênis por causa dele. Na verdade, quando eu vi o Juan Carlos Ferrero jogar pela primeira vez, lá pelos idos do ano 2000, eu já acompanhava tênis havia 4 anos. Trocando de canal distraidamente num domingo à tarde (sempre à procura de algum jogo de tênis, obviamente), me deparei com aquele espanhol magrelo e de luzes no cabelo, disputando a final do torneio de Barcelona, e tendo como oponente, do outro lado da quadra, um deus greco-russo chamado Marat Safin. A verdade, meus amigos, é que, quando você vê um jogo do Marat Safin pela primeira vez na sua vida, e presta mais atenção no cara que está do outro lado da quadra, seu destino está sentenciado: você vai amar aquele cara pelo resto da sua vida.
Ferrero perdeu aquela final, como perderia muitas outras. Mas, sabe como é, eu sou botafoguense, e não seria uma derrotinha que iria arrefecer o meu entusiasmo. Muito pelo contrário. Tinha alguma coisa de especial naquele espanhol.
Eu havia começado a acompanhar tênis graças ao Fernando Meligeni, que quase tinha beliscado uma medalha nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Mas em 2000 o Brasil já vivia a febre Gustavo Kuerten. Guga tinha conquistado o título de Roland Garros em 1997, e entrava o ano no top 5 da ATP. A expectativa por um novo título no saibro francês era imensa, o que acabou atraindo todas as atenções para aquelas duas semaninhas do Aberto da França. Para quem não sabe o que era acompanhar tênis há 12 anos atrás, vou contar que a realidade era bem diferente. Havia poucas opções de canais a cabo, redes sociais não existiam, nem Youtube, muito menos streams online. O que nos restava eram mesmo os livescores do site da ATP.
Casualmente, aquele espanhol que tinha chamado minha atenção em Barcelona resolveu aprontar estripulias em Paris. Eu estudava para as provas de final de período com um olho nos livros de Direito e outro no saibro parisiense, e quando me dei conta, Ferrero estava nas semifinais. E, angústia maior da minha existência, ia lutar contra Guga por uma vaga na final. Além de eu adorar o Guga, ele era também a representação do Brasil em Roland Garros, e pra mim o Brasil estava sempre acima de tudo. Nada podia me encher mais de orgulho do que ver um brasileiro sendo campeão de um Grand Slam. Além disso, torcer pelo Brasil no tênis era totalmente diferente naquela época. Hoje vemos o Bellucci, nosso melhor tenista, ficar sempre no quase contra os melhores do ranking, e (pelo menos por enquanto) sem absolutamente nenhuma esperança de vencer um torneio de Grand Slam, ou mesmo um Masters 1000. Em 2000 a história era outra. Guga podia ganhar de absolutamente qualquer um. Para ele não era apenas possível vencer o Aberto da França, como também era provável.
Aliás, o tênis de um modo geral era bem diferente há 12 anos atrás. Existia uma delimitação bem nítida de estilos de jogo para quadras lentas e para quadras rápidas. Na verdade, as quadras lentas eram realmente lentas e as quadras rápidas, realmente rápidas. Quando começava a temporada de saibro, que teria seu clímax em Roland Garros, o tênis mudava de cara, vivia uma nova realidade, com novos personagens, novas cores, novos reis. Ganhar no saibro não era pra qualquer um (Pete Sampras que o diga…). O título de Rei do Saibro era disputado quase como se fosse uma coroa de número um do mundo. De repente, lá pelos idos de abril, um bando de jogadores latinos saía de suas tocas e invadia o circuito, deslizando sobre o pó de tijolo e tirando da manga vitórias arrasadoras sobre jogadores tops.
Eu me lembro exatamente do dia em que assisti a esse que foi um dos melhores jogos de tênis que já vi na vida. Era um dia frio de inverno e eu me sentei na frente da TV ao lado do meu pai, com o coração na mão. A batalha começou e eu só conseguia pensar: “esse cara joga demais!”. Lá pelas tantas, quando eu não me contive mais e comecei a verbalizar esse pensamento, meu pai começou a pegar no meu pé e reclamar que eu estava torcendo contra o Guga. Não estava. Na verdade, eu queria que desse empate, queria que aquele jogo não acabasse nunca. Mas acabou. Nosso Rei do Saibro mostrou quem mandava e deixou Ferrero para trás, rumo ao bi em Rolanga. Obviamente, eu sabia que a história do Ferrero com Roland Garros não terminaria ali.
Como se não bastasse, aquele Aberto da França foi o último torneio de tênis a que eu assisti junto com meu pai. Ele viria a falecer dois meses depois, e foi um tanto quanto surpreendente para mim descobrir que o Ferrero também tinha perdido um dos seus pais, e que em suas conquistas sempre homenageava sua mãe que já havia partido.
Quem tem um tenista querido dentro do coração sabe que, quando você começa a descobrir coisas sobre a vida pessoal dele, é porque o relacionamento entre vocês já atingiu um outro patamar. Foi a partir daí que eu comecei mesmo a torcer, seguir, apoiar, virar fã. O que evidentemente era bem diferente de ser fã de um tenista hoje em dia. Não existia essa molezinha de simplesmente receber um reply no Twitter, como me aconteceu esses dias com o Guillermo Coria. O argentino foi um dos grandes rivais do Ferrero naquela época e um dos meus tenistas preferidos. E, dia desses, inadvertidamente respondeu um dos meus tweets. Pensar que eu fui fã do cara durante anos e de repente, milênios depois, ele me brinda com o privilégio de inteirar-se da minha existência. Nas priscas eras do início da década passada, ser fã de tenista era roots. Era pura devoção cega, sem a mínima expectativa de reconhecimento.
Na época, eu fui a única brasileira a me juntar ao grupo de seguidores do Ferrero, que se reuniu no site dele e compartilhava um grupo de e-mail na internet. Juanki me fez aprender a falar espanhol (felizmente ele não nasceu na China rs), me fez virar PhD em tênis, me fez escrever poesia, me fez madrugar incontáveis noites para assistir aos jogos do outro lado do mundo, me fez matar estágio e aula na faculdade. Graças à amizade com o webmaster do site oficial do Ferrero na época, em um tempo muito anterior à era das redes sociais, me aconteceu de um emocionado texto meu sobre a final da Masters Cup de 2002 chegar às mãos do pai dele. E também recebi um e-mail da sua então namorada, prestando esclarecimentos sobre a sua existência (oi? rs).
Ah, a final da Masters Cup de 2002… Depois da vitória heróica na final da Copa Davis em 2000, onde Ferrero ganhou do Hewitt e garantiu a primeira ensaladera da história para a Espanha, seguiram-se os grandes títulos e também as grandes decepções. Primeiro, a derrota acachapante por 3 sets a zero na semifinal de Roland Garros em 2001, novamente contra o Guga. No ano seguinte, no mesmo torneio, a derrota absurda para Albert Costa, dessa vez na final. E então a final da Masters Cup contra Hewitt, depois de vitórias sobre Andre Agassi e Carlos Moyá. Ferrero tinha perdido os dois primeiros sets por duplo 7-5, e começou uma virada sensacional, emplacando dois 6-2 e empatando o jogo. Era o seu momento, a hora de fechar o caixão, de desferir o golpe final. Ele dominava, jogava melhor, e todos esperavam que viria arrasador para liquidar o australiano no set final. Mas se existe um jogador que você só pode considerar derrotado quando o jogo acaba, ele se chama Lleyton Hewitt. O australiano ressurgiu dos mortos e fechou o quinto set – e o jogo – por 6-4.
Depois de tanto sofrimento, alguma mágica deve ter acontecido no começo de 2003. Porque esse foi o ano em que, sem nenhuma sombra de dúvida, toda a minha sorte na vida foi automaticamente transferida para o Juan Carlos Ferrero. O mesmo ano em que eu fui obrigada a mudar de cidade, viver dramas familiares e outras histórias dignas de novela mexicana, foi o melhor ano da vida profissional do espanhol. Foram dois títulos de Masters Series (incluindo um triunfo no carpete em Madri), uma final de US Open, número 1 do mundo e – finalmente – a glória máxima em Roland Garros. Sem TV a cabo ou internet, praticamente incomunicável com o mundo (ou pelo menos com a parte dele que me interessava), foi por uma notinha de jornal que eu fiquei sabendo da presença do Ferrero novamente na final em Paris, um ano após o fiasco diante de Costa. E a situação daquela vez era a mais surreal possível. O favoritíssimo Ferrero ia fazer a final contra Martin Verkek, um desconhecido número quarenta e tantos do mundo. É mais ou menos como se Rafael Nadal fosse fazer a final de Roland Garros contra, digamos, Fabio Fognini nos dias de hoje. Dessa vez era impossível desperdiçar, e ele não desperdiçou. Ferrero finalmente ganhou seu título de Grand Slam em Paris e entrou para o seleto grupo dos grandes do tênis de todos os tempos. Ele era, enfim, o Rei do Saibro. Mas não apenas isso. Em 2003 Ferrero foi vice-campeão do US Open e desbancou ninguém menos do que Andre Agassi para se tornar número 1 do mundo.
Esses foram definitivamente os anos de contos de fada do espanhol. De 2004 em diante, Ferrero passou a ser assombrado pelos fantasmas da inconsistência e das lesões. Em 2010, conseguiu uma bela sequência de vitórias no saibro, mas no final do ano teve que se operar de uma lesão no joelho. No ano seguinte, Ferrero intentou um retorno mais uma vez, e chegou a ganhar o torneio de Stuttgart. Foi o último estertor do campeão.
Não que os anos difíceis também não tenham trazido suas alegrias. Belas apresentações vieram, mas com o advento do gênio Roger Federer e do monstro do saibro Rafael Nadal, ganhar títulos foi se tornando cada vez mais difícil para todos. E se hoje torcemos para que nossos grandes tenistas sejam supercolecionadores de vitórias, quebradores de recordes, deuses do tênis encarnados na Terra, eu confesso que saboreava e me deleitava com cada pequeno triunfo do Juanki, com cada paralela de backhand que ia direto na linha, e com cada sorriso depois de uma vitória.
Até porque os títulos e as vitórias estão longe de ser o único legado deixado pelo agora aposentado Juan Carlos Ferrero. O Mosquito foi um precursor, um homem que abriu caminhos para o hoje fenomenal tênis espanhol. Graças a ele e a sua vitória diante de Lleyton Hewitt, a Espanha ganhou seu primeiro título da Copa Davis. Ele é um dos três únicos espanhóis a já terem sido número 1 do mundo. Desde sempre ele apoiou o projeto de ter uma academia de tênis, onde hoje ajuda a forjar os novos talentos do tênis espanhol. Ferrero investiu para transformar um torneiozinho mequetrefe em sua cidade natal em um dos melhores eventos ATP do calendário. Ferrero foi um Rei do Saibro que não se acomodou e desenvolveu seu jogo para ser bem-sucedido também em quadras rápidas (será que algum outro espanhol se inspirou nisso depois?). Ferrero foi sempre tão gentleman, tão humilde, uma pessoa tão fantástica, que em sua aposentadoria foi homenageado por pessoas tão distintas como os gente-boa Federer e Djokovic e o limão mais azedo que o tênis mundial já conheceu, Lleyton Hewitt. Respeitado, admirado, amado. Descrito como uma pessoa nobre pelo amigo, sócio e companheiro de duplas no último jogo de sua carreira como profissional, David Ferrer. Ferrero se aposenta deixando para a história uma carreira de vitórias, nas quadras e na vida.
Meu tenista preferido partiu, e eu confesso que nesta última semana senti uma certa melancolia, que mais tarde deu lugar a um bocado de nostalgia, quando revi todas as histórias e os vídeos que usei para fazer esta pequena homenagem. Mas, no fim das contas, meu coração se encheu de alegria pela chance de rememorar tudo isso, pela chance de relembrar para mim mesma o quanto esse esporte fantástico chamado tênis enriqueceu a minha vida. E, tomada por essa alegria, no final das contas a única coisa que me ocorre é desejar tudo de melhor que a vida possa dar para o Juanki daqui por diante. Porque o sentimento que eu carrego por esse cidadão chamado Juan Carlos Ferrero vai muito além de torcida, de fanatismo, de predileção, de entretenimento. E já que, quanto mais numerosas são minhas palavras, mais eu sinto que nunca conseguirei descrever a magnitude de tudo isso, pego emprestadas as palavras de um poeta de verdade para expressar o tudo de bom que eu desejo para o Juanki daqui pra frente:
“Gostaria de te desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes.
E que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!”
(Carlos Drummond de Andrade)
Adiós, Juanki. Que a vida sempre lhe retribua toda a felicidade que você nos proporcionou. Suerte, campeón!















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