Gigante

Postado em Golden Racket

Tentar decifrar o caráter de um tenista a partir de suas atuações em quadra pode ser perigoso. Um gênio das raquetes pode se mostrar um milionário muquirana na vida real, como Pete Sampras (pelo menos, na versão de Andre Agassi). Mas, às vezes, um jogador simplesmente é o que é. E, à medida que nos é dado contemplar a sua evolução, acompanhar sua jornada e seu exemplo de vida, acabamos descobrindo que o tênis bonito era apenas o começo.

Eu tenho uma confissão a fazer: eu amo Novak Djokovic. Talvez seja porque ele passou a infância se refugiando de bombas em um país arrasado pela guerra. Ou porque ele é palhaço, bem-humorado e brincalhão. Ou porque ele obriga seu patrocinador a lhe fornecer roupas nas cores do seu país, as quais ele gloriosamente enverga durante todo o ano, e não apenas na Copa Davis. Ou porque ele aparece em cadeia nacional para meter o bedelho nos assuntos políticos do seu país. Ou porque ele consegue viver sem glúten. Ou porque ele não se importa de ser chamado de croata por um apresentador (obviamente) português. Ou porque, quando todo mundo discutia quem era o melhor entre Roger Federer e Rafael Nadal, ele foi lá e fez aquilo tudo que vocês já conhecem.

No seu próprio estilo de jogo, Nole personifica o exemplo de vida que parece cultivar desde pequeno: nunca desistir. Não existe bola perdida. Não existe jogo perdido. O que existe é perseguir o seu melhor a cada dia. Na busca dessa perfeição, Nole tem crescido em maturidade e perdido um pouco da irreverência. Tem sido mais operário e menos showman. Seu tênis tem sido mais consistente (OK, às vezes chato) e menos espetaculoso. Novak Djokovic é um cara que sabe o que realmente importa.

E ontem, em Monte Carlo, ao entrar em quadra horas depois de receber a notícia do falecimento de seu avô, Nole deu mais uma demonstração de que tipo de essência ele é feito. Nunca desistir. Perseguir seu melhor a cada dia. Ser motivo de orgulho para seu país, para sua família. Onde quer que eles estejam. Após fechar um jogo amarrado contra Dolgopolov, Nole ergueu os braços para os céus e chorou. Dedicou a vitória – muito mais grandiosa do que os 3 sets jogados em quadra – ao avô. Porque a vitória era o melhor que ele poderia oferecer a um ente querido que se foi. E porque é isso que Nole faz com os desafios que a vida lhe impõe: dobra-os, sublima-os, supera-os.

Os desafios, aliás, têm que ir enfrentar Nole preparados para uma batalha de cinco sets. Do outro lado da rede há um gigante. No tênis e na vida.