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Joana

Joana Alencastro, 30 anos, é carioca radicada em Porto Alegre. É bacharel em Direito, leonina, botafoguense e praticante de tiro com arco. Viciou em tênis em Atlanta ’96, com o quase bronze de Fernando Meligeni. Tem um leve pendor pelos tenistas sérvios.

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Adiós

Postado em Golden Racket

Meu tenista preferido se aposentou. Simples assim. Nunca mais vou vê-lo jogar no circuito profissional. Nunca mais vou vê-lo conquistar um pontinho no ranking da ATP. Nunca mais vou vê-lo erguer um troféu. Nunca mais vou ver os forehands matadores do fundo da quadra. Nunca mais vou vê-lo chegar naquelas bolas impossíveis que só o “Mosquito” conseguiria alcançar. Nunca mais vou ver as passadas inacreditáveis. Nunca mais as paralelas de backhand em cima da linha. Nunca mais.

Há alguns meses atrás, tive um pálido vislumbre do que significa “perder” para sempre o seu tenista preferido, quando Andy Roddick se aposentou e o Filipe Ribeiro e o Marcos Semensato viram seu mundo ruir. Faço aqui uma mea culpa para confessar que, na ocasião, tratei a dor alheia com certo desdém. Compreensível, uma vez que a aposentadoria de Andy Roddick não significava grande coisa para mim. A verdade é que, por mais que você ame o tênis, você vê jogadores novos surgindo e outros se aposentando o tempo inteiro, e nenhuma despedida é especialmente significativa, até que aconteça com o seu tenista preferido. E aqui vem a notícia triste: inexoravelmente, isso vai acontecer. Seu tenista preferido vai se aposentar, e não haverá nada que você possa fazer a respeito.

Bem, talvez “nada” seja uma palavra meio radical para o momento. Você pode escrever algumas linhas, pra talvez tentar fazer o mundo entender o que aquele ser especial transformou dentro de você. Você pode prestar homenagens emocionadas, como fez o Marcos para o Roddick e a Bárbara Galiza para a Dementieva. Você pode abrir seu coração e expor as lembranças maravilhosas do que passou e a saudade que vai sentir daqui pra frente. Você pode tentar encontrar algum eco, alguma outra voz que se junte à sua para não te permitir dizer “adeus” sozinho, e dessa forma deixar esse adeus um pouco menos difícil. Acho que este texto é pra isso. Não para enumerar os muitos feitos e glórias do meu tenista preferido. Há por aí gente bem melhor com números e estatísticas do que eu, muito mais capacitada para fazer isso. Não quero falar de tênis simplesmente, mas do que essa aventura fantástica representou na minha vida. Eu só queria dizer o que o Juan Carlos Ferrero significou e significa pra mim, antes de dizer adiós.

Eu não comecei a seguir o tênis por causa dele. Na verdade, quando eu vi o Juan Carlos Ferrero jogar pela primeira vez, lá pelos idos do ano 2000, eu já acompanhava tênis havia 4 anos. Trocando de canal distraidamente num domingo à tarde (sempre à procura de algum jogo de tênis, obviamente), me deparei com aquele espanhol magrelo e de luzes no cabelo, disputando a final do torneio de Barcelona, e tendo como oponente, do outro lado da quadra, um deus greco-russo chamado Marat Safin. A verdade, meus amigos, é que, quando você vê um jogo do Marat Safin pela primeira vez na sua vida, e presta mais atenção no cara que está do outro lado da quadra, seu destino está sentenciado: você vai amar aquele cara pelo resto da sua vida.

Ferrero perdeu aquela final, como perderia muitas outras. Mas, sabe como é, eu sou botafoguense, e não seria uma derrotinha que iria arrefecer o meu entusiasmo. Muito pelo contrário. Tinha alguma coisa de especial naquele espanhol.

Eu havia começado a acompanhar tênis graças ao Fernando Meligeni, que quase tinha beliscado uma medalha nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Mas em 2000 o Brasil já vivia a febre Gustavo Kuerten. Guga tinha conquistado o título de Roland Garros em 1997, e entrava o ano no top 5 da ATP. A expectativa por um novo título no saibro francês era imensa, o que acabou atraindo todas as atenções para aquelas duas semaninhas do Aberto da França. Para quem não sabe o que era acompanhar tênis há 12 anos atrás, vou contar que a realidade era bem diferente. Havia poucas opções de canais a cabo, redes sociais não existiam, nem Youtube, muito menos streams online. O que nos restava eram mesmo os livescores do site da ATP.

Casualmente, aquele espanhol que tinha chamado minha atenção em Barcelona resolveu aprontar estripulias em Paris. Eu estudava para as provas de final de período com um olho nos livros de Direito e outro no saibro parisiense, e quando me dei conta, Ferrero estava nas semifinais. E, angústia maior da minha existência, ia lutar contra Guga por uma vaga na final. Além de eu adorar o Guga, ele era também a representação do Brasil em Roland Garros, e pra mim o Brasil estava sempre acima de tudo. Nada podia me encher mais de orgulho do que ver um brasileiro sendo campeão de um Grand Slam. Além disso, torcer pelo Brasil no tênis era totalmente diferente naquela época. Hoje vemos o Bellucci, nosso melhor tenista, ficar sempre no quase contra os melhores do ranking, e (pelo menos por enquanto) sem absolutamente nenhuma esperança de vencer um torneio de Grand Slam, ou mesmo um Masters 1000. Em 2000 a história era outra. Guga podia ganhar de absolutamente qualquer um. Para ele não era apenas possível vencer o Aberto da França, como também era provável.

Aliás, o tênis de um modo geral era bem diferente há 12 anos atrás. Existia uma delimitação bem nítida de estilos de jogo para quadras lentas e para quadras rápidas. Na verdade, as quadras lentas eram realmente lentas e as quadras rápidas, realmente rápidas. Quando começava a temporada de saibro, que teria seu clímax em Roland Garros, o tênis mudava de cara, vivia uma nova realidade, com novos personagens, novas cores, novos reis. Ganhar no saibro não era pra qualquer um (Pete Sampras que o diga…). O título de Rei do Saibro era disputado quase como se fosse uma coroa de número um do mundo. De repente, lá pelos idos de abril, um bando de jogadores latinos saía de suas tocas e invadia o circuito, deslizando sobre o pó de tijolo e tirando da manga vitórias arrasadoras sobre jogadores tops.

Eu me lembro exatamente do dia em que assisti a esse que foi um dos melhores jogos de tênis que já vi na vida. Era um dia frio de inverno e eu me sentei na frente da TV ao lado do meu pai, com o coração na mão. A batalha começou e eu só conseguia pensar: “esse cara joga demais!”. Lá pelas tantas, quando eu não me contive mais e comecei a verbalizar esse pensamento, meu pai começou a pegar no meu pé e reclamar que eu estava torcendo contra o Guga. Não estava. Na verdade, eu queria que desse empate, queria que aquele jogo não acabasse nunca. Mas acabou. Nosso Rei do Saibro mostrou quem mandava e deixou Ferrero para trás, rumo ao bi em Rolanga. Obviamente, eu sabia que a história do Ferrero com Roland Garros não terminaria ali.

Como se não bastasse, aquele Aberto da França foi o último torneio de tênis a que eu assisti junto com meu pai. Ele viria a falecer dois meses depois, e foi um tanto quanto surpreendente para mim descobrir que o Ferrero também tinha perdido um dos seus pais, e que em suas conquistas sempre homenageava sua mãe que já havia partido.

Quem tem um tenista querido dentro do coração sabe que, quando você começa a descobrir coisas sobre a vida pessoal dele, é porque o relacionamento entre vocês já atingiu um outro patamar. Foi a partir daí que eu comecei mesmo a torcer, seguir, apoiar, virar . O que evidentemente era bem diferente de ser fã de um tenista hoje em dia. Não existia essa molezinha de simplesmente receber um reply no Twitter, como me aconteceu esses dias com o Guillermo Coria. O argentino foi um dos grandes rivais do Ferrero naquela época e um dos meus tenistas preferidos. E, dia desses, inadvertidamente respondeu um dos meus tweets. Pensar que eu fui fã do cara durante anos e de repente, milênios depois, ele me brinda com o privilégio de inteirar-se da minha existência. Nas priscas eras do início da década passada, ser fã de tenista era roots. Era pura devoção cega, sem a mínima expectativa de reconhecimento.

Na época, eu fui a única brasileira a me juntar ao grupo de seguidores do Ferrero, que se reuniu no site dele e compartilhava um grupo de e-mail na internet. Juanki me fez aprender a falar espanhol (felizmente ele não nasceu na China rs), me fez virar PhD em tênis, me fez escrever poesia, me fez madrugar incontáveis noites para assistir aos jogos do outro lado do mundo, me fez matar estágio e aula na faculdade. Graças à amizade com o webmaster do site oficial do Ferrero na época, em um tempo muito anterior à era das redes sociais, me aconteceu de um emocionado texto meu sobre a final da Masters Cup de 2002 chegar às mãos do pai dele. E também recebi um e-mail da sua então namorada, prestando esclarecimentos sobre a sua existência (oi? rs).

Ah, a final da Masters Cup de 2002… Depois da vitória heróica na final da Copa Davis em 2000, onde Ferrero ganhou do Hewitt e garantiu a primeira ensaladera da história para a Espanha, seguiram-se os grandes títulos e também as grandes decepções. Primeiro, a derrota acachapante por 3 sets a zero na semifinal de Roland Garros em 2001, novamente contra o Guga. No ano seguinte, no mesmo torneio, a derrota absurda para Albert Costa, dessa vez na final. E então a final da Masters Cup contra Hewitt, depois de vitórias sobre Andre Agassi e Carlos Moyá. Ferrero tinha perdido os dois primeiros sets por duplo 7-5, e começou uma virada sensacional, emplacando dois 6-2 e empatando o jogo. Era o seu momento, a hora de fechar o caixão, de desferir o golpe final. Ele dominava, jogava melhor, e todos esperavam que viria arrasador para liquidar o australiano no set final. Mas se existe um jogador que você só pode considerar derrotado quando o jogo acaba, ele se chama Lleyton Hewitt. O australiano ressurgiu dos mortos e fechou o quinto set – e o jogo – por 6-4.

Depois de tanto sofrimento, alguma mágica deve ter acontecido no começo de 2003. Porque esse foi o ano em que, sem nenhuma sombra de dúvida, toda a minha sorte na vida foi automaticamente transferida para o Juan Carlos Ferrero. O mesmo ano em que eu fui obrigada a mudar de cidade, viver dramas familiares e outras histórias dignas de novela mexicana, foi o melhor ano da vida profissional do espanhol. Foram dois títulos de Masters Series (incluindo um triunfo no carpete em Madri), uma final de US Open, número 1 do mundo e – finalmente – a glória máxima em Roland Garros. Sem TV a cabo ou internet, praticamente incomunicável com o mundo (ou pelo menos com a parte dele que me interessava), foi por uma notinha de jornal que eu fiquei sabendo da presença do Ferrero novamente na final em Paris, um ano após o fiasco diante de Costa. E a situação daquela vez era a mais surreal possível. O favoritíssimo Ferrero ia fazer a final contra Martin Verkek, um desconhecido número quarenta e tantos do mundo. É mais ou menos como se Rafael Nadal fosse fazer a final de Roland Garros contra, digamos, Fabio Fognini nos dias de hoje. Dessa vez era impossível desperdiçar, e ele não desperdiçou. Ferrero finalmente ganhou seu título de Grand Slam em Paris e entrou para o seleto grupo dos grandes do tênis de todos os tempos. Ele era, enfim, o Rei do Saibro. Mas não apenas isso. Em 2003 Ferrero foi vice-campeão do US Open e desbancou ninguém menos do que Andre Agassi para se tornar número 1 do mundo.

Esses foram definitivamente os anos de contos de fada do espanhol. De 2004 em diante, Ferrero passou a ser assombrado pelos fantasmas da inconsistência e das lesões. Em 2010, conseguiu uma bela sequência de vitórias no saibro, mas no final do ano teve que se operar de uma lesão no joelho. No ano seguinte, Ferrero intentou um retorno mais uma vez, e chegou a ganhar o torneio de Stuttgart. Foi o último estertor do campeão.

Não que os anos difíceis também não tenham trazido suas alegrias. Belas apresentações vieram, mas com o advento do gênio Roger Federer e do monstro do saibro Rafael Nadal, ganhar títulos foi se tornando cada vez mais difícil para todos. E se hoje torcemos para que nossos grandes tenistas sejam supercolecionadores de vitórias, quebradores de recordes, deuses do tênis encarnados na Terra, eu confesso que saboreava e me deleitava com cada pequeno triunfo do Juanki, com cada paralela de backhand que ia direto na linha, e com cada sorriso depois de uma vitória.

Até porque os títulos e as vitórias estão longe de ser o único legado deixado pelo agora aposentado Juan Carlos Ferrero. O Mosquito foi um precursor, um homem que abriu caminhos para o hoje fenomenal tênis espanhol. Graças a ele e a sua vitória diante de Lleyton Hewitt, a Espanha ganhou seu primeiro título da Copa Davis. Ele é um dos três únicos espanhóis a já terem sido número 1 do mundo. Desde sempre ele apoiou o projeto de ter uma academia de tênis, onde hoje ajuda a forjar os novos talentos do tênis espanhol. Ferrero investiu para transformar um torneiozinho mequetrefe em sua cidade natal em um dos melhores eventos ATP do calendário. Ferrero foi um Rei do Saibro que não se acomodou e desenvolveu seu jogo para ser bem-sucedido também em quadras rápidas (será que algum outro espanhol se inspirou nisso depois?). Ferrero foi sempre tão gentleman, tão humilde, uma pessoa tão fantástica, que em sua aposentadoria foi homenageado por pessoas tão distintas como os gente-boa Federer e Djokovic e o limão mais azedo que o tênis mundial já conheceu, Lleyton Hewitt. Respeitado, admirado, amado. Descrito como uma pessoa nobre pelo amigo, sócio e companheiro de duplas no último jogo de sua carreira como profissional, David Ferrer. Ferrero se aposenta deixando para a história uma carreira de vitórias, nas quadras e na vida.

Meu tenista preferido partiu, e eu confesso que nesta última semana senti uma certa melancolia, que mais tarde deu lugar a um bocado de nostalgia, quando revi todas as histórias e os vídeos que usei para fazer esta pequena homenagem. Mas, no fim das contas, meu coração se encheu de alegria pela chance de rememorar tudo isso, pela chance de relembrar para mim mesma o quanto esse esporte fantástico chamado tênis enriqueceu a minha vida. E, tomada por essa alegria, no final das contas a única coisa que me ocorre é desejar tudo de melhor que a vida possa dar para o Juanki daqui por diante. Porque o sentimento que eu carrego por esse cidadão chamado Juan Carlos Ferrero vai muito além de torcida, de fanatismo, de predileção, de entretenimento. E já que, quanto mais numerosas são minhas palavras, mais eu sinto que nunca conseguirei descrever a magnitude de tudo isso, pego emprestadas as palavras de um poeta de verdade para expressar o tudo de bom que eu desejo para o Juanki daqui pra frente:

“Gostaria de te desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes.
E que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua felicidade!”

(Carlos Drummond de Andrade)

Adiós, Juanki. Que a vida sempre lhe retribua toda a felicidade que você nos proporcionou. Suerte, campeón!

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Gigante

Postado em Golden Racket

Tentar decifrar o caráter de um tenista a partir de suas atuações em quadra pode ser perigoso. Um gênio das raquetes pode se mostrar um milionário muquirana na vida real, como Pete Sampras (pelo menos, na versão de Andre Agassi). Mas, às vezes, um jogador simplesmente é o que é. E, à medida que nos é dado contemplar a sua evolução, acompanhar sua jornada e seu exemplo de vida, acabamos descobrindo que o tênis bonito era apenas o começo.

Eu tenho uma confissão a fazer: eu amo Novak Djokovic. Talvez seja porque ele passou a infância se refugiando de bombas em um país arrasado pela guerra. Ou porque ele é palhaço, bem-humorado e brincalhão. Ou porque ele obriga seu patrocinador a lhe fornecer roupas nas cores do seu país, as quais ele gloriosamente enverga durante todo o ano, e não apenas na Copa Davis. Ou porque ele aparece em cadeia nacional para meter o bedelho nos assuntos políticos do seu país. Ou porque ele consegue viver sem glúten. Ou porque ele não se importa de ser chamado de croata por um apresentador (obviamente) português. Ou porque, quando todo mundo discutia quem era o melhor entre Roger Federer e Rafael Nadal, ele foi lá e fez aquilo tudo que vocês já conhecem.

No seu próprio estilo de jogo, Nole personifica o exemplo de vida que parece cultivar desde pequeno: nunca desistir. Não existe bola perdida. Não existe jogo perdido. O que existe é perseguir o seu melhor a cada dia. Na busca dessa perfeição, Nole tem crescido em maturidade e perdido um pouco da irreverência. Tem sido mais operário e menos showman. Seu tênis tem sido mais consistente (OK, às vezes chato) e menos espetaculoso. Novak Djokovic é um cara que sabe o que realmente importa.

E ontem, em Monte Carlo, ao entrar em quadra horas depois de receber a notícia do falecimento de seu avô, Nole deu mais uma demonstração de que tipo de essência ele é feito. Nunca desistir. Perseguir seu melhor a cada dia. Ser motivo de orgulho para seu país, para sua família. Onde quer que eles estejam. Após fechar um jogo amarrado contra Dolgopolov, Nole ergueu os braços para os céus e chorou. Dedicou a vitória – muito mais grandiosa do que os 3 sets jogados em quadra – ao avô. Porque a vitória era o melhor que ele poderia oferecer a um ente querido que se foi. E porque é isso que Nole faz com os desafios que a vida lhe impõe: dobra-os, sublima-os, supera-os.

Os desafios, aliás, têm que ir enfrentar Nole preparados para uma batalha de cinco sets. Do outro lado da rede há um gigante. No tênis e na vida.

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Sharapovices

Postado em Golden Racket

Acabou a temporada dos dois quase-Grand Slams que acontecem back-to-back nos dois extremos dos Estados Unidos. Os dois número 1 do mundo, Djokovic e Azarenka, levaram pra casa cada um o seu. Aga Radwanska, que anda ciscando em torno do topo do ranking há algum tempo, também saiu sorridente. Enquanto isso, a grande novidade foi o triunfo de Federer, que faturou Indian Wells batendo Rafael Nadal na semifinal. OK, como se Federer ganhando um título de Masters 1000 fosse uma grande novidade.

Para outros, entretanto, a sorte não foi tão generosa. A número 1 Victoria Azarenka socou as próprias coxas, derramou lágrimas e borrou o rímel ao ser derrotada por Marion Bartoli em Miami e colocar um ponto final em sua série de 26 vitórias. Andy Murray foi Andy Murray e perdeu a final de Miami para Djokovic. Mas para uma jogadora em particular, o primeiro trimestre do ano foi especialmente marcante.

Ah, tá, Sharapova

Em meados do ano passado, quando ninguém aguentava mais ver Caroline Wozniacki como número 1 do mundo e as lesões pareciam ter dado um break pra Sharapova, parecia que a russa voltaria para reclamar de vez o primeiro posto do ranking, quando alcançou a final de Wimbledon (aquele mesmo). Mas, ao invés de brilhar, Maria foi ofuscada por Petra Kvitova, que despontou como aquela que tinha tudo pra ser a nova rainha do tênis, mas que acabou terminando o ano como número 2.

Veio 2012, e logo em janeiro já começava o primeiro Grand Slam do ano. O lado WTAno do Australian Open já iniciava o ano em polvorosa, quando um bando de jogadoras entravam na chave com chance de se tornar número 1 do mundo. Pois Sharapova, uma das candidatas, levou toda sua experiência à final contra Victoria Azarenka. E aí começou a sina vascaína da musa russa. Maria perdeu para Vika com direito a pneu, deixando mais uma vez os holofotes sobre a adversária. Azarenka ganhou seu primeiro título de Grand Slam e virou número 1. Sharapova? Fuéns.

Tudo bem, ainda tem Indian Wells e Miami

Depois de uma aparição discreta em Paris, Sharapova seguiu para Indian Wells como número 2 do mundo, no encalço de Vika. Antes do torneio, porém, um sinal de mau agouro: em jogo-exibição contra a fanfarrona Caroline Wozniacki, que lá pelas tantas resolveu entregar a raquete na mão do namorado, Sharapova conseguiu a proeza de perder um ponto para o golfista Rory McIlroy.

Apesar do fiasco contra o golfista da Wozniacki, Maria conseguiu emplacar outra campanha fulminante em Indian Wells, deixando as musas Maria Kirilenko e Ana Ivanovic pelo caminho para chegar novamente à final. Novamente, contra Azarenka. E novamente, um vice.

Tudo bem, ainda tem Miami

Em Miami, Vika acusou o cansaço contra Bartoli e não conseguiu chegar à final. Sharapova parecia franca favorita para conquistar seu primeiro título na temporada até se deparar com Radwanska na final. A polonesa, que também tem em Azarenka sua espinha atravessada na garganta, derrotou Maria em sets diretos. Sharapova ficou com o vice. De novo.

Bitch!

Não tenho acompanhado assim tão de perto a evolução (ou não) de Sharapova durante este ano. Ouvi de fontes seguras (certo, George?) que Maria tem tentado fugir um pouco do seu feijão-com-arroz de dar pancadas na bola da maneira ensandecida, o que é sempre um alívio. Eu particularmente tenho achado a sua campanha este ano bastante peculiar. Na minha opinião, Sharapova não é uma jogadora de vices. Ela tem a força mental e a experiência para sobrepujar as adversárias nos momentos decisivos. Supus que poderia ser alguma espécie de bloqueio psicológico contra a Vika, ou simplesmente uma superioridade flagrante da bielorrussa, mas a derrota para Radwanska jogou todas as minhas teorias pelo ralo. Também ouvi que poderíamos esperar uma recuperação na temporada de saibro. Sim, aquela superfície onde Sharapova disse se sentir uma “vaca no gelo”. Talvez a fome da russa por fechar seu Grand Slam possa lhe render uma boa campanha em Roland Garros, mas e até lá? Não tenho dúvidas de que Sharapova é uma jogadora campeã. Mas este ano, por enquanto, só o que tivemos foram Sharapovices.

4

DjokoVIKA

Postado em Golden Racket

Victoria Azarenka bateu Maria Sharapova em dois sets para conquistar o título de Indian Wells no último domingo, dando sequência a uma incrível série de resultados em 2012: 23 vitórias e nenhuma (sim, eu disse nenhuma) derrota.

Enquanto a bielorrussa segue os passos da incrível campanha que Novak Djokovic protagonizou no ano passado, onde foi perder sua primeira partida do ano apenas em Roland Garros, o mundo se surpreende com a dominação absoluta de uma jogadora no até ontem conturbado ranking da WTA.

Jogadoras rainhas do circuito não são novidade na WTA, vide Justine Henin, Martina Hingis e Steffi Graf, apenas para ficar em exemplos mais recentes. Mas há alguns anos o tênis feminino vinha vivendo um período de entressafra. O que se viu foi uma série de jogadoras que ocuparam o topo do ranking na base da regularidade e sem conseguir resultados expressivos (leia-se: sem título de Grand Slam), que passavam o ano inteiro cavando pontos em torneios intermediários mas acabavam sempre entregando os Majors para alguma jogadora desconhecida ou para a Serena Williams. A americana, aliás, não poupou sarcasmo para Dinara Safina, uma das tenistas que se rodiziaram como número 1 nessa época.

Além da russa, outras célebres ocupantes dessa posição foram Jelena Jankovic e a recém deposta Caroline Wozniacki. Em comum entre as três, um excelente jogo de velocidade no fundo de quadra, uma capacidade defensiva absurda, e muito pouca intimidade com winners.

Quando Petra Kvitova bateu Sharapova na final de Wimbledon no ano passado (estaria Maria se tornando uma espécie de escada para as novas caras da WTA? #trollface), o mundo depositou na tcheca as esperanças de uma nova número 1 legitimada pelo bom tênis e resultados vistosos. Petra quase chegou lá, mas ao fim do ano ficou apenas com o número 2.

E eis que este ano, a bielorrussa cabeluda que já rondava as primeiras posições do ranking da WTA há algum tempo, mas sem nunca demonstrar muitas condições de chegar ao topo, resolveu virar o jogo. Azarenka colocou os nervos no lugar, deixou de lado as fofoquinhas com as coleguinhas do circuito, adicionou consistência à incrível potência de seus golpes e foi à luta. Chegou à posição de número 1 ao mesmo tempo em que conquistou seu primeiro título de Grand Slam, no Aberto da Austrália (lamento dizer, mas foi em cima da Sharapova…). Ainda estamos em março, e Vika já tem 4 títulos. A exemplo do que aconteceu com Djokovic no ano passado, quando o sérvio reformulou sua dieta e prerapação física e deixou um pouco de lado as imitações e palhaçadas, Vika parece ter entrado em 2012 decidida a focar no que interessa: o tênis. Até agora, tem dado certo. Azarenka tem sido irrepreensível este ano dentro de uma quadra de tênis – bom, talvez exceto pelo modelito estrambólico de short branco com calça preta por baixo que a moça desfilou na final…

Será que a nova rainha da WTA resistirá invicta até Roland Garros? Ou poderá ir além? O fato é que Victoria Azarenka se acomodou muito bem ao seu trono. As outras que suem para tirá-la de lá.

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Os Premiados

Postado em Golden Racket

O mundo inteiro sabe que esse premiozinho que chamam de Oscar não passa de uma cópia barata do Golden Racket, sem a raquete. OK, não dá pra enganar ninguém… a gente sabe que o Golden Racket é que é uma cópia tosca do Oscar rs. Então, já que o blog nasceu dessa brincadeira, nada mais justo do que a gente prestar uma homenagem ao nosso “muso” inspirador, e juntar aqui um punhado do que de melhor aconteceu no tênis nos últimos 12 meses.

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Melhor Animação

Torcida argentina na Copa Davis. Ganhando ou perdendo, sempre a mais animada. OK, a gente sabe do trauma que o povo tem porque a Argentina já ganhou Oscar e o Brasil não. Mas ao invés de reclamar, o melhor é aprender como se faz. #FicaaDica


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Melhor Montagem

Jelena Jankovic. Vamos combinar que ninguém se monta pra uma festa como ela.

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Melhor Direção de Arte

Roger Federer. Os golpes mais belos da história do tênis. Sem mais.

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Melhor Figurino

Maria Sharapova. A musa que já teve grandes momentos de graça e requinte dentro das quadras (saudades de Roland Garros) hoje em dia anda deixando a desejar com seus outfits da Nike. Mas, fora das quadras, a russa continua reinando absoluta.

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Melhor Trilha Sonora

Victoria Azarenka. Foi uma disputa acirrada entre Azarenka, Petra Kvitova e Maria Sharapova. Mas, no desempate, a Academia escolheu os gritos mais eficazes e ganhou a número 1 do mundo.

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Melhor Maquiagem

Maria Sharapova. Apesar das unhas roídas, quando se trata de entrar em uma quadra para jogar tênis, dispensar o rímel, o delineador, o pó e o blush continua sendo a melhor opção.

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Melhores Efeitos Visuais

Rafael Nadal. Por motivos óbvios. Nesta categoria também foram indicados Fernando Verdasco e Feliciano López.

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Melhor Roteiro Adaptado

Novak Djokovic. Pegue a história de um jogador que veio de um país arrasado no leste europeu. Some com a de outro tenista que ganhou duzentas e quarenta e nove partidas consecutivas. Adicione aquele outro que venceu três torneios de Grand Slam no mesmo ano e adapte tudo para 2011: está aí o roteiro premiado de Novak Djokovic.

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Melhor Roteiro Original

Victoria Azarenka. Arrebatou o posto de número 1 do mundo junto com seu primeiro título de Grand Slam. E joga na WTA. Sem mais.

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Melhor Ator Coadjuvante

Andy Murray. O eterno número quatro do mundo que não vence Grand Slam.

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Melhor Atriz Coadjuvante

Caroline Wozniacki. Perdeu o posto de atriz principal para a ex-melhor amiga, mas se mantém sob os holofotes namorando um golfista e fazendo papagaiadas em jogos-exibição.

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Melhor Ator

Novak Djokovic. Ele já foi comediante de besteirol, imitador barato e especialista em encenar contusões. Mas hoje é um galã multimilionário e astro maior do circuito. Não tem pra mais ninguém.

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Melhor Atriz

Victoria Azarenka. Com aptidão vocal nata para heroína de filmes de terror, a bielorrussa teve momentos nebulosos na carreira, encarando papéis secundários como a melhor amiga da mocinha em comédias adolescentes. Mas hoje impera como estrela absoluta, e, dizem as más línguas, encenando uma contusão aqui e ali.

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Melhor Diretor

Marian Vajda. O homem que transformou o eterno número 3 do mundo em uma máquina de vencer.

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Melhor Filme

Final do Australian Open 2012. Embate entre o número 1 e o número 2 do mundo. Final de simples mais longa da história dos Grand Slams. Excelentes atores, muita ação, muito suspense e um final surpreendente. Sem dúvida, o filme mais espetacular da temporada e um dos grandes clássicos de todos os tempos.


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Brasil Open do Balacobaco

Postado em Golden Racket

Acaba de acabar a edição 2012 do Brasil Open, o único torneio ATP em terras nacionais. E estamos no meio do Carnaval. Não vou me surpreender se daqui a pouco começarem a pipocar na internet fotos dos tenistas que disputaram o torneio, rodeados por mulatas seminuas, ensaiando aquela sambadinha gringa de cintura dura. Mas espera aí! Na verdade essas fotos já saíram. E no meio do torneio!

Não era terça-feira de Carnaval, mas Nalbandián caiu no samba

O Brasil Open saiu da Costa do Sauípe, um resort paradisíaco incrustado no estado da Bahia, no meio de lugar nenhum, e veio para São Paulo, aproximando-se do público tenístico e de um clima mais “profissional”, por assim dizer, para um torneio desse porte. Mas como atrair para os jogos a atenção que eles merecem — tanto por parte do público quanto dos jogadores — quando o evento está metido na mesma semana daquela que é simplesmente a maior festa do país? Será que os benefícios em termos de turismo (quem vem ao Brasil curtir o torneio já pode ficar direto pro Carnaval, será essa a mentalidade?) compensam comprometer a seriedade do torneio? Afinal, existe interesse em recolocar o nome do Brasil em lugar de destaque no cenário do tênis internacional? Existe confiança de que nosso público tenístico seja capaz de encher ginásios e apreciar bom tênis? Ou somos mesmo o país do Carnaval que aproveita essa fama para abiscoitar um pedacinho do circuito da ATP? Será que essa tríade Brasil-Carnaval-Tênis é uma boa combinação?

Por outro lado, imaginar que a data do Brasil Open foi escolhida a dedo para aproveitar o potencial de turismo internacional parece contraditório quando vemos que o site oficial do torneio não tem versão em inglês. Site que, por sinal, deu problema logo nos primeiros dias: durante boa parte da terça-feira, a página com a programação dos jogos ficou fora do ar. E o que dizer do susto ao entrar na chave do torneio e ver Jeremy Chardy como cabeça-de-chave número 1? Sim, porque o link “Chaves” na home do site levava direto ao draw do qualifying!

Mas, apesar dos percalços, o Brasil Open teve seus bons (ótimos) momentos. Pode-se dizer que ter dois top 20 em um torneio no saibro quando todo mundo está mais preocupado com os Masters em quadra dura nos Estados Unidos está de bom tamanho. Além disso, bons nomes como o sempre bom David Nalbandián e o chileno em turnê de despedida Fernando González abrilhantaram a chave. Não podemos esquecer o número um do Brasil, Thomaz Bellucci, que marcou presença. A clínica com alunos da APAE, comandada por André Sá, também foi uma bela iniciativa. E, para fechar com chave de ouro, a dupla-sensação amada pelo público, formada pelo brasileiro Bruno Soares e pelo americano Eric “Booty” Butorac, sagrou-se campeã.

A CBT, com seu presidente recém reeleito, deu um tiro certeiro ao trazer o Brasil Open para São Paulo, e agora parece estar mirando novas conquistas. O torneio teve recorde de público, e a organização do evento já pensa em trazer um jogador do top 10 e elevar a categoria do torneio para ATP 500 no ano que vem. Tudo indica que muito em breve teremos também um torneio WTA no país. Segundo o presidente da Confederação, as negociações estão bem adiantadas para comprar os direitos do WTA de Marbella e trazer o circuito feminino pra cá. Vamos torcer. Ao que parece, o Brasil está garantindo um futuro promissor no tênis. Pelo menos fora das quadras.

De qualquer maneira, o Brasil Open não vai deixar nenhum gosto de quarta-feira de cinzas. Afinal de contas, esse continua sendo o melhor torneio ATP do Brasil!

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Happy Valentine’s Day

Postado em Golden Racket

Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, eu podia estar me descabelando e me revoltando contra o Valentine’s Day, essa data romântica e fofucha em que se celebra o amor…

Mas como aqui no Brasil essa vibe só nos arrebata mesmo em junho, dá para deixar o ressentimento de lado e fazer uma pequena homenagem tenística. Eu fiquei pensando em vários casais famosos do tênis que poderiam ilustrar toda a beleza do amor nessa data tão meiga, como, por exemplo, Caroline Wozniacki e Rory McIlroy. Mas o golfista não passou no controle de qualidade. Talvez Petra Kvitova e Adam Pavlasek, mas o pivete foi barrado pelo Juizado de Menores. Ou então Ana Ivanovic e o golfista (e bofe escândalo de plantão) Adam Scott. Mas era beleza, charme e glamour demais pra um casal só. Quem sabe os gigantes Maria Sharapova e Sasha Vujacic? Infelizmente, o rapaz que tem nome de filha da Xuxa não passou no teste de masculinidade. Também pensei em Rafael Nadal e Xisca Perelló, mas ninguém até hoje conseguiu arrancar da moça uma declaração sobre o namoro. O incensado número 1 Novak Djokovic e sua Jelena Ristic eram candidatos, até eu descobrir que ele havia se separado da sérvia e começado a namorar a Chiquinha do Chaves. E infelizmente Roger e Mirka Federer estavam ocupados demais cuidando das gêmeas.

Falando sério, na verdade eu sabia desde o início que apenas um casal seria capaz de entregar a mensagem que eu queria aqui nesse Valentine’s Day. Quando li a autobiografia do Andre Agassi, no início do ano, me chamou a atenção a parte em que ele diz que todo homem deveria ter a honra de fazer um discurso de apresentação da mulher que ama durante a sua cerimônia de ingresso no Hall da Fama. Por razões óbvias, muito poucas mulheres no mundo são convidadas a ingressar no Hall da Fama do que quer que seja. E menos mulheres ainda têm o privilégio de dividir sua vida com um cara que tenha a capacidade de dizer o que Andre disse a Steffi Graf nesse dia. Que não é contado no livro, mas que coincidentemente acabou atravessando meu caminho, quando esbarrei no vídeo abaixo há uns dias atrás. São algumas das palavras de amor mais doces e cheias de significado que eu já ouvi na vida. Agassi e Graf são o maior símbolo vivo de parceria verdadeira no tênis. A representação perfeita desse esporte que começa com “love”.

“Eu me dei conta de que ainda têm que ser inventadas palavras

grandes o bastante

coloridas o bastante

ou verdadeiras o bastante

para expressar o coração e a alma

dessa mulher que eu amo:

Stefanie.

Eu imagino o que eu poderia dizer

para fazer justiça ao modo como você tem vivido sua vida

e às vidas que você mudou.

Eu comecei há vários anos atrás

em um pequeno quadro-negro,

sentado na nossa cozinha

(uma tradição que eu mantive por todas as noites),

e ao final de cada dia eu pegava um giz

e tentava expressar

as várias coisas que você significa pra mim.

Às vezes, apenas uma breve linha,

às vezes, uma pequena história,

mas sempre

apenas o transbordamento

de um coração agradecido.

E após todos esses meses e anos

escrevendo pra você todas as noites

nunca me faltaram maneiras

de refletir a luz que você trouxe para a minha vida.

E agora – que ironia!

nestes breves momentos eu preciso colocar em palavras

essas coisas que eu adoro tanto em você.

Talvez eu possa lhe dizer isso de uma forma simples:

há pouco tempo atrás, nós estávamos na estrada

e eu olhei pela janela do nosso quarto de hotel

em um andar bem alto.

Eu podia ver o topo de uma linda e antiga catedral

que era estonteante, com mármore e pedra esculpidos,

tudo tão perfeito.

Eu não podia acreditar na obra de arte que eu estava vendo

e eu imaginei quantos anos eles teriam levado para criar aquilo

e o que os teria estimulado a se comprometer tanto.

Então eu comecei a apreciar algo maior.

Eu percebi que, à época de sua construção,

aquele era de longe o prédio mais alto

e em uma era bem anterior aos aviões e arranha-céus

esses artistas acreditavam todos os dias, quando se engajavam em seu trabalho,

que nenhum ser humano, nenhum par de olhos

jamais veriam a sua criação.

Como eles poderiam não cortar caminho?

Como poderiam não considerar sua tarefa rotineira?

Eu só posso imaginar que isso veio de um lugar lá dentro.

A necessidade de serem verdadeiros consigo mesmos

era a sua razão

e a sua recompensa.

Tudo isso me ajudou a entender você um pouquinho melhor,

nunca precisando de aplausos

para fazer o seu melhor,

apenas precisando dar o melhor que a sua alma poderia dar

para se sentir completa.

Desde o barulho da multidão

dentro das linhas de uma quadra central

até o silêncio de um quarto de criança

essa alma generosa,

essa força inquebrantável,

essa integridade suave

nunca foram abaladas.

A arena do tênis apenas lhe deu o cenário e a oportunidade

para aprimorar essas qualidades ainda mais.

Você sempre foi uma pessoa de ações,

não de palavras.

Você nunca se definiu por aquilo que conquistou.

Ao invés disso, você conquistou pela forma como se definiu.

E mesmo agora, me tirou o fôlego

ver como você silenciosamente abandonou sua raquete

para perseguir o amor e a maternidade

com o mesmo zelo e altos padrões

que você sempre exigiu de si mesma.

Ninguém nunca viu você se deslumbrar com as próprias conquistas.

Na verdade, como eu sempre digo,

todas as pessoas que falarem com você

provavelmente esquecerão em 30 segundos todas as grandes coisas que você fez,

mas vão sentir que você se importa,

que tem empatia com os sentimentos delas,

e que você nunca vai largar seus corações

até saberem que foram completamente compreendidos.

Os livros de história vão guardar para a posteridade

a sua habilidade de aceitar e superar as adversidades

de superar as lesões

e vencer

de novo

e de novo

e de novo.

Em um futuro distante

as pessoas analisarão e discutirão seu lugar

como a maior da sua era,

e à medida que as futuras gerações ouvirem

sobre a sua força e a sua hegemonia,

elas podem ser tentadas a achar que a conhecem

ou que conhecem o coração de gigante que bate em você.

Mas para aqueles dentre nós

que são abençoados por ver em pessoa

a sua humildade silenciosa,

por ver você representar o seu esporte

com inequívoca dignidade,

e quanto àqueles dentre nós que são ainda mais abençoados

por sermos elevados de nós mesmos pelo seu riso,

por sermos destinatários

do seu coração sempre generoso,

nós teremos gravado em nós para sempre

algo que nenhuma estatística pode conter.

Nós fomos tocados profundamente pela sua vida.

Você nos fez melhores

e nós jamais seremos os mesmos.

Stefanie, você passou muitos anos da sua vida competindo,

mas aqui onde nos encontramos,

aos olhos dos seus filhos

e dentro do meu coração

você não tem rivais.

Senhoras e senhores,

eu lhes apresento a melhor pessoa que eu já conheci,

Stefanie Graf.”

(Andre Agassi)

Happy Valentine’s Day!

3

Resoluções de Ano Novo do Sr. Tênis

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Queridos fãs,

 Não sei exatamente por que razão, mas este ano me deu uma preguiça danada de trabalhar. Eu tinha tantas resoluções legais de 2010 para colocar em prática, mas logo no começo do ano me bateu um desânimo e eu acabei deixando tudo meio que no piloto automático. Só me animei a inventar alguma coisa de diferente nos Grand Slams, e olhe lá. Afinal, como aprendi com a amiga Serena, são só os  Grand Slams que interessam mesmo.  

 Não que o povo possa reclamar. Todos já estavam se queixando que eu estava sendo dominado apenas por Federer e Nadal há tempo demais. Pronto, resolvi dar um pouquinho de espaço pro tal do Djokovic. Será que exagerei?

Ah, só um pouquinho, vai…  

Sinto muito, mas também não tive criatividade pra inventar novos modelitos bafônicos pra minha piriguete-mor (e número 1 do mundo, pelo menos por enquanto… mas você é outra que já está dando no meu saco, Carol!). E vamos combinar, pessoal… vocês não acreditaram mesmo que Sharapova ia ganhar Wimbledon de novo, né? Seriously? A verdade é que eu andava me sentindo meio sozinho e fui aconselhado a comprar um cachorro. Mas como nem a ATP, nem a WTA, nem a ITF aceitam animais dentro de quadra (há controvérsias), fui obrigado a inventar a Kvitova.

  Pega o troféu, Petra! Pega!

 Bom, mas se o mundo realmente vai acabar em 2012, então vamos botar pra quebrar! Esse vai ser o ano mais incrível da minha história. Aí vão minhas resoluções de Ano Novo:

 - prometo que vou espantar a preguiça e não vou mais deixar um jogador só ganhando todos os jogos sem parar durante 485 torneios consecutivos;

Vocês-sabem-quem

 - prometo que vou dar umas férias pro Nadal descansar a cabeça, namorar a Xisca e ir a uns shows do Michel Teló;

 - prometo que aquele suíço vai me pagar todo o tênis que ele anda me devendo. Ou então vou despejá-lo;

 - prometo que o torneio olímpico de tênis será decente;

 - prometo que manterei criaturas de caninos avantajados dentro dos filmes de vampiro e fora das minhas quadras;

Medo 

- prometo que pelo menos um troféu de Grand Slam vou reservar pra um jogador que nunca ganhou nenhum antes. Ou talvez dois. Quem sabe três?

 - prometo que vou tentar te dar uma forcinha com o Deliciano, Judy.

 - prometo que vou arranjar coisa melhor pra Sharapova. E pra Kirilenko. OK, pra você também, Carol. E você, Aninha, vê se sossega o facho, que o seu bofe já tá bom demais;

 - prometo que, atendendo a pedidos, inundarei a WTA com um número cada vez maior de jogadoras piriguetes (Oi, Jarka? Oi, Carol?);

 - prometo que não vou aposentar mais nenhum jogador/jogadora relevante;

Te extrañamos, Charly! 

- prometo que vocês nunca mais ouvirão falar em Jelena Jankovic;

 - prometo que livro sua cara com o Juizado da Infância e Juventude, Petra;

 - prometo que vocês não verão nenhuma autobiografia de jogadores em atividade nas livrarias;

 - prometo reservar um troféu de Grand Slam pra uma polonesa;

 - prometo que a final da Davis não vai ter nenhum país falando castelhano;

Já deu pra vocês, né?

- prometo que teremos uma número 1 com Grand Slam;  

- prometo dar ao Bellucci imunidade especial contra derrotas para jogadores random de fora do top 50 nas duas primeiras rodadas de qualquer torneio;

Bellucci montado no champanhe: win!

Jogador random montado no champanhe: fail 

- prometo viver esse ano como se fosse o último. Quem viver, verá!

Feliz Ano Novo!

Assinado: Tênis

5

Em cartaz: Serena Williams

Postado em Golden Racket

A Páscoa foi em abril, mas parece que no mundo do tênis o mês da Ressurreição é julho. Há apenas duas semanas, Juan Carlos Ferrero voltava de quase 10 meses se recuperando de cirurgias e lesões para ganhar o título de Stuttgart. Agora foi a vez de Serena Williams.

OK, ninguém discute que a WTA é um terreno bem mais fértil do que a ATP para esses retornos triunfais. Que o diga a mamãe Kim Clijsters, que voltou ao circuito após uma pausa para ter a filha Jada, e venceu o US Open apenas um ano e meio após dar à luz(!).

Acho que também não é surpresa pra ninguém que Serena Williams, quando quer, põe o circuito no bolso. Basta jogar o que sabe nos Grand Slams (o que normalmente é suficiente para trucidar todas as outras) e desfrutar de férias sem fim durante o resto do ano, enquanto as demais tenistas se matam para conquistar os pontos que sobram nos torneios “menos importantes”.

Ela pode: férias na praia, look cisne na festa do Met e style travecón na festa pré-Wimbledon.

O resultado? Um ranking da WTA falsamente competitivo, com várias alternâncias de posições e encabeçado por uma eterna número-um-sem-título-de-grand-slam. E quando Serena resolve entrar em quadra, é um salve-se quem puder.

Número 1 sem Grand Slam? Se vira, Wozniacki!

Para se ter uma ideia, até o início do torneio de Wimbledon, em junho, Serena se segurava entre as 30 melhores do mundo. E isso apenas com os pontos correspondentes ao título do Grand Slam britânico do ano passado! Aliás, Serena bem que tentou defender todos esses pontos, mas acabou esbarrando em Marion Bartoli nas oitavas.

A derrota em Wimbledon fez Serena despencar para a 169ª posição no ranking. Alguns poderiam pensar que era uma coisa impensável para uma Serena Williams. Mas não estava nada mau para quem não jogava havia praticamente um ano, e havia passado por todo aquele drama.

Ah, sim, o drama. Porque, como boa diva que é, Serena haveria de ter seu período off court cercado por contornos dramáticos. O fato é que, à exceção de uma campanha coadjuvante em Eastbourne, Serena ficou praticamente sem jogar profissionalmente desde julho do ano passado – época do obscuro episódio das pisadas em cacos de vidro – até Wimbledon deste ano. No meio do caminho, a americana ainda enfrentou uma embolia pulmonar e declarou sua morte virtual (mas não se preocupem, virtualmente ela também já ressuscitou).

“Morte virtual” por uma boa causa: combater a AIDS na África e na Índia.

Mas para os fãs de Serena que conseguiram sobreviver a essa montanha-russa de emoções, o resto do ano promete. A americana parece ser partidária da ideia de que a 169ª posição do ranking é impensável para uma Serena Williams. Bem ao seu estilo, a diva aproveitou a vantagem de jogar em casa e já chegou na US Open Series dando voadora. Aplicou uma bicicleta em Anastasia Rodionova logo na estreia, bateu Maria Kirilenko, arrasou a musa Maria Sharapova e a sensação alemã Sabine Lisicki, e pra completar ainda se vingou de Marion Bartoli na final. Campeã de Stanford, apenas na terceira tentativa após o comeback.

Agora Serena Williams já é tida por alguns como favorita ao título do US Open. Seria cedo demais pra dizer? O fato é que o circuito feminino fica bem melhor com o carisma, o talento, o estilo e a fanfarronice da diva. Serena Williams está de novo em cartaz, e com a promessa de muita ação. Eu não vou perder.

 

PS: Devido às crises econômicas nos Estados Unidos e na Europa, que vêm continuamente alavancando o preço do ouro, o Golden Racket, em medida de contenção de despesas, vai passar a racionar a distribuição de troféus.

8

De volta, de novo

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Se a vida de Juan Carlos Ferrero desse um filme, possivelmente seria uma daquelas intermináveis séries de terror. Quando todo mundo pensa que o vilão finalmente morreu, ele reaparece para estrelar o Sexta-Feira 13 parte 11245. Mas talvez seja outra franquia cinematográfica que descreva Ferrero melhor. O fato é que Juan Carlos Ferrero é Duro de Matar.

A vitória em Stuttgart no último domingo coroou o (mais um) retorno de um jogador que, aos 31 anos, se recusa a encarar o ostracismo das raquetes penduradas.

Rei do saibro nunca perde a majestade 

Campeão de Roland Garros e ex-número 1 do mundo, Ferrero apareceu para o mundo do tênis em 2000, quando pela primeira vez figurou entre os 20 melhores do ranking da ATP. Nesse mesmo ano, no Grand Slam francês, ele perdeu uma semifinal épica, por 3 sets a 2, para o eventual campeão Gustavo Kuerten. Ambos voltariam a se encontrar no ano seguinte, quando Ferrero já era top 5 do mundo, na mesma semifinal, mas dessa vez apenas para uma vitória arrasadora do tricampeão Guga por 3 sets a 0.

Em 2002, Ferrero já era conhecido como um dos reis do saibro e tinha cadeira cativa no top 5 da ATP, quando conseguiu a proeza de perder sua primeira final de Roland Garros para o compatriota Albert Costa, em uma das maiores zebras da história do aberto parisiense. Além de franco favorito, o Mosquito (como foi carinhosamente apelidado pela torcida espanhola) havia vencido o então número 4 do mundo, Andre Agassi, nas quartas de final, e o número 2, Marat Safin, nas semis. Mas acabou entregando o título para Costa em 4 sets – com direito a pneu no segundo. Para completar, Ferrero fechou o ano com mais um momento “quase lá” ao deixar escapar o título da Tennis Masters Cup (vocês sabem, esse torneio de fim de ano que vive mudando de nome e atualmente responde por ATP Finals): derrota na final para Lleyton Hewitt por 3 sets a 2.

Masters Cup 2002: quase lá

Mas se em 2002 o espanhol só bateu na trave, no ano seguinte a maré virou: 2003 foi o ano de Juan Carlos Ferrero. Com uma vitória contundente sobre o azarão Martin Verkerk na final, ele finalmente ergueu a taça de campeão de Roland Garros. E, após uma brilhante campanha no US Open, onde perdeu somente na final para o local Andy Roddick, Ferrero chegou a número 1 do mundo. Era o auge de sua carreira.

Finalmente campeão de Roland Garros

No início de 2004, parecia que a excelente fase continuaria. Ferrero alcançou as semifinais do Aberto da Austrália, perdendo apenas para o futuro-melhor-de-todos-os-tempos Roger Federer. Mas foi então que os problemas físicos começaram a assombrar o espanhol. Primeiro, ele ficou afastado das quadras por dois meses em decorrência de uma catapora. Quando finalmente pôde voltar aos treinos, contundiu o pulso. Despreparado para defender o título de Roland Garros, perdeu na segunda rodada. Pela primeira vez em 5 anos, Ferrero terminava o ano fora do top 30.

A partir dali, o topo do ranking começava a se tornar um sonho cada vez mais distante, principalmente porque o tênis masculino começava a entrar na era de dominação absoluta de Roger Federer e Rafael Nadal. Mas, embora quase tenha despencado para fora do top 100 no início de 2005, Ferrero conseguiu dois vice-campeonatos e terminou o ano como top 30, onde se manteve até meados de 2008. Nesse ano, lesões na perna e no ombro forçaram o Mosquito a abandonar Roland Garros e Wimbledon logo nas primeiras rodadas, e o empurraram para a 52ª posição no ranking ao fim da temporada. Em 2009, Ferrero tentava correr atrás de pontos na gira sul-americana, e, pela primeira vez em quase 10 anos, deixou o grupo dos 100 melhores jogadores do mundo.

Em queda livre

Falhando na tentativa de recuperar sua melhor forma e pressionado pelos resultados pífios, o espanhol era assombrado pelo fantasma da aposentadoria. Porém, em meados de 2009, Ferrero tirou da cartola uma campanha surpreendente na temporada de grama, piso no qual nunca obtivera resultados muito expressivos: chegou às semifinais no torneio de Queen’s e às quartas em Wimbledon. Em outubro, o espanhol havia conseguido uma impressionante escalada de 95 posições no ranking, e voltava a figurar no top 20 apenas 5 meses após ter caído para o 115º posto. A boa fase se estendeu durante o ano de 2010, com títulos na Costa do Sauípe, em Buenos Aires e em Umag.

Juan Carlos Ferrero estava entre os 30 melhores do mundo quando, no final do ano passado, voltou a ser assombrado pelas lesões. Após perder para Jurgen Melzer na terceira rodada do US Open, o espanhol se afastou das quadras para se submeter a cirurgias no joelho e no pulso. Operado em outubro, pôde voltar aos treinamentos apenas em dezembro, e relatou em seu blog a lenta recuperação que o forçou a ficar afastado das quadras durante todo o início deste ano.

Retorno na raça

O período de recuperação das duas cirurgias se revelou mais longo do que o esperado. Em fevereiro, Ferrero completou 31 anos de idade sem conseguir passar pouco mais de uma hora em quadra treinando. Teria finalmente chegado o momento da derrocada? Seria o adeus do campeão de Roland Garros? Era a hora da aposentadoria para o Mosquito?

No dia 16 de abril, quase 7 meses após o início da reabilitação e após, nas palavras do próprio jogador, “quase beirar o desespero”, Ferrero anunciou seu retorno às quadras. Em seu primeiro torneio após se recuperar das lesões, jogando em casa, o espanhol chegou às quartas de final no ATP 500 de Barcelona. No torneio seguinte, o Masters 1000 de Madri, Ferrero caiu logo na primeira rodada e voltou a sentir o joelho. De volta à reabilitação e aos treinos, ficaria de fora de Roland Garros e de Wimbledon, e no final de junho anunciou que faria novo retorno no dia 11 de julho, no torneio de Stuttgart.

O saibro lento ajudou?

O que aconteceu semana passada em Stuttgart – embora agora posto um pouco mais em perspectiva – todo mundo já sabe. Após mais dois meses de recuperação das insistentes lesões, Juan Carlos Ferrero retornou ao circuito para se sagrar campeão no saibro alemão. No último domingo, o espanhol conquistou o 16º título da carreira, na superfície onde ficou conhecido como um dos grandes. Derrotou o compatriota e companheiro de treinos Pablo Andujar na final, em sets diretos, fechando a partida com um pneu.

Na entrevista após a final, Ferrero se disse feliz e confiante, e comentou que não tinha expectativas depois de passar 10 meses treinando. Mas, no final de uma semana mágica, ele terminou com o título, um Mercedes SLK 350 na garagem e um salto de 21 posições no ranking.

Campeão em Stuttgart: o 16.º título da carreira

Enquanto Juan Carlos Ferrero se aproxima mais uma vez do top 50 da ATP, fica a pergunta: até onde ele vai chegar, de novo? Para um jogador que já enfrentou tantos reveses e empreendeu retornos incríveis, isso é irrelevante. Chegue aonde chegar, Ferrero já garantiu seu lugar entre os grandes do tênis mundial.

Por toda a história de lutas e vitórias, quedas, persistência, vontade de vencer e amor ao tênis, e esperando que ainda venham muitas reviravoltas por aí, premiamos nosso Mosquito, Juan Carlos Ferrero: o Duro de Matar da ATP.