A melhor performance
Postado em Saque e Voleio
A maioria dos frequentadores do blog já sabe que andei boa parte das últimas duas semanas preparando uma série de reportagens para o Globoesporte.com em comemoração aos dez anos do triunfo de Gustavo Kuerten na Masters Cup, em Lisboa. Há alguns dias, coloquei também aqui no blog uma parte da entrevista que fiz com Guga, na qual ele falou bastante sobre a tática adotada para derrotar Pete Sampras.
Agora, então, deixo aqui tudo que ele falou sobre a final daquela Masters Cup, contra Andre Agassi. Sempre vi aquele jogo como o melhor da carreira de Guga e, mesmo sem fazer essa pergunta específica, ouvi dele a mesma coisa quando conversamos em Florianópolis. O catarinense também acha que aquela foi a melhor partida de sua vida. Leiam abaixo e divirtam-se (eu deveria ter postado este texto na sexta-feira, mas tive um problema de saúde que me afastou do computador e só pude fazê-lo hoje).
“Eu diria que esse jogo, abreviando ele, foi a melhor performance que eu tive como profissional. Analisando toda a figura, lidar com tudo aquilo que requer a situação, foi o maior rendimento que eu tive, não tenho dúvida. Ali eu tinha ainda algumas incertezas, mudanças recentes no meu estilo de jogo naquela quadra, tinha, queira ou não queira, uma restrição física – se o jogo tivesse quatro, cinco sets, eu não ia ter como aguentar aquele mesmo nível -, tinha o lance de enfrentar caras como Agassi e Sampras naquele piso, em que eu nunca tinha ganhado torneio e ainda era algo angustiante para mim… Para ser número 1 do mundo, lidar com essa expectativa, jogando contra esse nível de caras, não dando nenhuma oportunidade….
Ele (Agassi) numa certa ocasião me disse: ‘Você sabia que naquele jogo eu tive tantos break points e que só uma vez eu consegui devolver o saque?’. Eu não sabia. Ele que veio me falar isso futuramente. Então eu consegui amarrar o Agassi numa situação de conseguir manipular aquilo por 2h, 2h e pouco. A partir do meio do segundo set, a torcida estava louca. ‘Vai acabar já? Não pode, não pode’. A hora que ele fazia um game, eu parava tudo, controlava e tal. Sabia já que tinha que lidar com isso, por mais que eu não quisesse. Era a realidade. Tudo, assim, para traduzir, foi um planejamento de A a Z, e consegui executar todas as tarefas em um grau 9, 10, 9, 10. Foi muita eficácia de todas as formas naquele jogo.
Até mesmo a forma com que eu fechei o jogo. Nem na hora de titubear ali, no momento final, não teve. Fui para o último game, saí na frente, fui ali controlando, 40/30, na primeira chance já fechei.
Eu lembro que no jogo em si a minha direita cruzada estava muito boa. Teve uma hora que ele tentou entrar na devolução, arriscar mais, aí depois ele começou a ir lá para trás e botar a bola na quadra, e não teve jeito. Ele tentava milhões de hipóteses, dava para ver que ele estava incomodado, e eu consegui provocar essa incomodação e ficar com ela até o fim.
O saque, sem dúvida, foi o meu ganha-pão nos momentos cruciais, e a direita cruzada eu lembro que incomodou muito ele. Era algo que o Sampras fazia contra ele e eu sabia que tinha que ousar mais. Por mais que eu errasse uma ou outra, tinha que ir para lá, na direita cruzada, e soltar uma sarrafada para definir por ali.
Outra estratégia que me ajudou muito foi subir mais à rede na esquerda dele. Volta e meia, por mais que eu não abrisse tanto a quadra, como eu esperava, eu subia na esquerda dele porque às vezes ele vinha de slice e eu estava lá para conferir. Isso, nos pontos importantes, foi bastante eficiente. E quando o cara consegue lidar com toda a parte estratégica, parte mental, botar tudo para ser executado nesse nível que a gente joga, a chance de vencer é muito grande.
Depois foi mais saborear. Aquele último game foi um sabor de ‘vai acontecer mesmo’. E eu não tinha mais dúvida. ‘Com certeza, isso vai acontecer’. Acabou surgindo para mim a oportunidade. Eu lembro que a última bola eu já olhava me controlando, porque eu sabia que ia ganhar aquele jogo. Ao mesmo tempo eu tentava disfarçar, enganar a minha cabeça: ‘Faz de conta que não tem nada acontecendo, vamos pensar aqui no ritual do jogo’. É a única coisa que faz a gente esquecer tudo ao redor: ‘Tem a bola aqui, eu vou sacar lá…’, e fica essa luta constante. Depois fui comemorar com a turma.”










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